sexta-feira, dezembro 20

E a Todos um Feliz Natal


Este ano não há Harry Potter para alegrar o nosso natal, por isso, aqui vai...

Frohe Weihnachten
Chuk Sung Tan
Glædelig jul! Feliz Navidad
Joyeux Noël
Καλά Χριστούγεννα
Merry Christmas
Buon Natale
Kung His Hsin Nien
S prazdnikom Rozdestva Hristova
God Jul

Traduzindo... Feliz Natal!

quarta-feira, dezembro 4

Dupla Identidade - Parte 6: Cópia (Final)

Bárbara ansiava vingança, sede por fazer sofrer a mulher que a destruiu, perseguia-a dia e noite, todos os dias esperava à porta do café, esperava por uma misera oportunidade para conseguir magoá-la. Na manhã de 24 de Dezembro do passado ano, Bárbara viu Eva a entrar no café ridiculamente mal vestida, e ligeiramente mais cedo do que o habitual, viu-a sentar-se na mesa, a fazer o seu pedido e a sair. Eva não tinha levado o carro, por esse motivo teria de atravessar a estrada para chegar à ourivesaria, Bárbara ligou o carro, acelerou furiosamente, e assim que embateu em Eva continuou a sua viagem como se nada tivesse acontecido. A peruca, os óculos, o chapéu, as luvas e o nome falso protegeram a sua identidade. No espelho do retrovisor viu o homem da sua vida a correr para o meio da estrada para acudir a mulher da vida dele. Viu tudo, uma lágrima caiu no seu colo, e o acelerador continuou a funcionar.
Subiu as escadas para o sótão apressadamente e em passos largos, ofegante, chegou ao topo e olhou para os homens que subiam atrás dela, a porta estava entreaberta. Bárbara entrou e viu uma mulher de costas, a fumar de pernas cruzadas, com uns longuíssimos saltos altos. – Eva? Não é possível! Como é que tu… Fingiste tudo isto? É impossível! – A mulher rodou lentamente a cabeça, e com a fraca luz conseguia ver-se o sorriso branco em contraste com o batom vermelho, e rompendo a surpresa e o silêncio Eva levantou-se e disse: - Olá Bárbara! Há quanto tempo… - A loira ficou furiosa e retirou a arma do bolso do casaco, o seu movimento fez com que os três homens por trás dela atingissem mortalmente os quatro guarda-costas. – Bárbara olhou para os homens caídos no chão e depois para Eva. – Como é que tu fizeste isto? – Eva fumou pela última vez o cigarro que tinha na mão, deitou-o para o chão e pisou-o com o salto fino. – Porque tenho uma irmã gémea sua idiota! – Os olhos de Bárbara estavam brilhantes e cristalinos, tinha atingindo a irmã errada. As lágrimas estavam a crescer, deixou cair a arma da sua mão e perguntou: - Porquê? – Eva chegou junto da amiga, pegou no revólver que estava no chão e respondeu: - Porque eu queria ser invisível para a polícia. – Ouviu-se um som grave, arrebatador e assustador, um som que pôs fim à vida de Bárbara.
Matilde e Marcos permaneciam perdidos em lugar nenhum à espera que alguém os encontrasse. – Desculpa não me lembrar de ti. – Disse Matilde melancólica. Marcos colocou-lhe a mão no queixo e disse: - Não faz mal meu amor, o que importa é que estamos juntos. – Mas ela vai encontra-los. – Isso já não importa, é passado, vamos reconstruir novamente a nossa vida, ser melhor do que aquilo que éramos antes. – Entretanto ouviram-se saltos altos a ecoarem entre as paredes, e minutos depois a fechadura a rodar. Uma lanterna foi apontada para ambos, e ambos estavam encadeados, Marcos perguntou ao mesmo tempo que se tentava levantar: - Deixa-nos ir! Já tens o que querias! – Em frente à lanterna surgiu um revólver, ouviu-se um grito estridente e dois sons graves. Matilde morreu às mãos da sua semelhante e Marcos nas mãos daquela que julgava amar.


Fim (Incompleto)

terça-feira, dezembro 3

Dupla Identidade - Parte 5: Enclausurados

Marcos já estava desamarrado e sentado no chão, encostado a uma parede petrificado e novamente enfeitiçado por Eva. Tudo o que tinham construído juntos, estava ser desmoronado, não podia partilhar com ela aquilo que tinham feito, o medo de ser rejeitado pelo passado estava a apoderar-se dele, estremecia só de pensar que Eva poderia vir a odiá-lo. Tinha feito tudo por ela, mas ela já não era quem ele conhecia, mas continuava a amá-la como se nunca nenhum acidente tivesse acontecido. As paredes claustrofóbicas faziam Marcos querer dizer a verdade, queria dizer a Eva tudo aquilo que partilharam, tanto o bom como o mau. – Eva tu e eu somos casados. Eu estava noivo antes de te conhecer, mas apaixonei-me loucamente por ti, e a minha noiva a Bárbara estava grávida, e nós… - Uma pausa apoderou-se dele. – Nós o quê? – Perguntou Eva em histeria. – Nós provocamos-lhe um aborto. – Eva ficou aterrorizada com o que Marcos lhe revelou, a garganta secou e não a deixou proferir um único som. – O que fizemos foi terrível, mas a Bárbara vai ficar com os diamantes rosa e com as provas para nos incriminar, é tudo o que ela quer, e nós, só temos de fugir. – Eva continuava calada, não porque não soubesse o que dizer mas porque se tinha lembrado da mãe e da irmã, as únicas pessoas no mundo com quem não falava há anos tinham aberto uma fresta na sua memória. – Lembrei-me! – Disse Eva entusiasmada. – Lembrei-me deles! Da minha mãe e da minha irmã, e do funeral da minha avó! Lembro-me! – Eva sorria desenfreadamente, não sabia porque razão se tinha lembrado, mas o facto era que os pedaços de vida estavam a regressar, brevemente iria lembrar-se de tudo. No auge do seu êxtase beijou o homem que outrora fora seu marido, fazendo com que a esperança de Marcos cresce-se exponencialmente, afinal havia esperança de ela se lembrar e continuar a amá-lo.
Bárbara pegou no telemóvel e ligou para Gustavo, o seu amigo policia, aquele que a tinha ajudado quando ela perdera o bebé, o mesmo que a aquecia nas noites mais frias, e que auxiliava em momentos de angústia. O telefone chamava e do outro lado não se obtinha resposta, após três tentativas Gustavo atendeu o telefone ofegante. – Estou! – Gustavo? Está tudo bem? – Sentiu-se embaraço do outro lado, e a voz cansada respondeu: - Sim, está! Precisas de alguma coisa? – É só para te dizer que já sei onde estão os diamantes, e as provas. Vem ter comigo à porta do prédio deles. – Agora estou a trabalhar, vou ter contigo depois, no local do costume. – Está bem. Tens a certeza que não se passa nada. – Não… Trabalho, só isso. Até logo. – Até logo. – Após desligarem os telefones, ela ficou radiante e sorridente por estar a saborear a sua vitória, ele, por outro lado, estava enclausurado.

Gustavo estava sentado em cima da cama com uma arma apontada à cabeça, três homens agarravam-no por trás, ele só implorava para que parassem. – Porque estão a fazer isto? Quem são vocês? – O telemóvel do homem que lhe apontava a arma tocou, e o homem foi para a casa de banho, fechou a porta, esteve uns minutos no seu interior. Quando saiu acenou aos outros dois, que largaram Gustavo, mas antes disso, um deles colocou-lhe um pano na boca e ele desmaiou. Já não havia muito mais a fazer, a vingança estava preparada.

segunda-feira, dezembro 2

Dupla Identidade - Parte 4: Traição

Eva era fria, calculista e solitária, raramente se deixava impressionar e dificilmente alguém a via apaixonar-se. Fazia parte de uma complexa rede de tráfico de diamantes, ela era a primeira mulher a liderar um esquema como este, tinha uma ourivesaria onde vendia as pedras preciosas que traficava, tinha homens e mulheres a trabalhar para ela. Eva dedicava-se simplesmente a desenhar as peças que vendia e a ordenar a sua elaboração. Por muito que a policia a tentasse apanhar, parecia impossível construir uma teia em que Eva caísse. Vivia numa penthouse com piscina no interior da casa, onde tinha vista para a cidade inteira, vivia sozinha, apenas tinha uma amiga e não confiava em ninguém.

Todas as manhãs Eva ia tomar um chá de gengibre e hortelã ao café mais próximo da sua casa, quando chegava sentava-se no balcão e lia a sua revista Vogue, num dia enublado de inverno um homem sentou-se ao seu lado, muito próximo dela, quase a tocá-la, fitou-o incomodada com a atitude do homem de olhos azuis, que pareciam pouco cortês e que ignoravam a palavra cavalheirismo. – Importa-se de me dar um pouco mais de espaço. – Arrependido, o homem afastou-se de imediato e pediu um café curto sem açúcar. Eva continuou a ler a sua revista, e o homem abordou-a: - Costuma vir aqui muitas vezes? – Eva fitou-o de baixo para cima, aproximou-se dele, e respondeu: - Sabe muito bem que sim, inspector Alfredo. – A voz da mulher ecoou nos ouvidos dele, como era possível ela estar ciente da sua identidade? No seio dos seus confusos pensamentos Alfredo paralisou, e Eva fechou a revista que estava a ler. – Sou a melhor amiga da sua namorada. Acha mesmo que eu, eventualmente, não iria conhecê-lo? Ou melhor, acha que eu não iria perceber, porque razão se aproximou dela? – Os olhos negros de Eva eram sensuais e ameaçadores, não tinham medo nem respeito, eram criminosos e astutos, e ao mesmo tempo intimidavam o infantil e desesperado olhar de Alfredo, que continuou petrificado com a perspicácia da mulher. Eva prosseguiu o monólogo que se viria a tornar diálogo: - Tenho uma proposta para si… - Alfredo sentiu-se ofendido: - Nem pense que farei negócio consigo! Nunca! – Eva sorriu e pegou na chávena de chá, deu um gole lento e pausado, pousou vagarosa e sensualmente a chávena, e disse: - Todos os homens têm um preço. Deixe-me dizer-lhe que já descobri o seu. – Alfredo sentiu-se novamente incomodado e levantou-se num ápice, respondendo abruptamente: - Eu não sou um homem qualquer! – Bebeu o café rapidamente, despediu-se da mulher e saiu do café. Estava a caminhar no passeio até ao carro e começou a ficar com tonturas, chegando junto do veículo apoiou-se, as pernas começaram a fraquejar. Dois homens apareceram e agarraram-no debaixo dos braços, sentiu o mundo a girar, e viu uns sapatos de salto agulha pararem à sua frente, uma mão suave e fria levantou o seu queixo e os lábios perfumados e rosados de Eva disseram: - Vamos então falar de negócios. – Tudo ficou negro, e em breve, a escuridão daria lugar ao desejo.

sábado, novembro 30

Dupla Identidade - Parte 3: Perda

Alta, elegante, vistosa e feliz, Bárbara tinha tudo o que uma mulher queria ter, era tudo o que uma mulher desejava ser, a sua profissão de modelo e estilista completavam o role de charme e estilo. Vivia o romance de sonho, e estava noiva à pouco mais de três meses. O seu futuro marido, Alfredo, era polícia e investigava uma rede de tráfico de diamantes, estava infiltrado e completamente obcecado pelo trabalho, nada parecia ter mudado na imaginação de Bárbara, mas para ele o mundo estava completamente invertido, começava a questionar o seu relacionamento. 
Num dia de manhã em que Alfredo entrava cedo, foi surpreendido pela noiva enquanto estava no duche: - Bom dia! – Exclamou a voz suave e doce de Bárbara. – Bom dia. – Respondeu de forma áspera o noivo ainda sonolento. Enquanto, Alfredo tomava banho completamente afastado do local onde estava, Bárbara ignorava a ausência dele, o seu sorriso radiante de mulher apaixonada, deu início a uma frase que viria a ser preocupante: - Fred, tenho uma excelente notícia que vai alterar os nossos planos de casamento… - O homem despertou do transe e perguntou: - O que é? – Bárbara voltou a sorrir de forma profunda e feliz, respondendo: - Porque estou grávida! – Alfredo parou, desligou a torneira e fitou a mulher que estava perto dele: - Grávida? – Sim! – Respondeu a loira entusiasmada. Aquele momento que deveria ser único e especial, tornou-se no pior pesadelo que o polícia poderia ter imaginado. Não conseguindo disfarçar a desilusão saiu da banheira, colocou uma toalha à cintura e caminhou para fora da casa de banho, Bárbara seguiu-o já mais preocupada com a reacção: - Não é maravilhoso? Vamos ser pais! – Alfredo não respondeu, limitou-se a beijar a testa da noiva, dizendo: - Sim, estamos de parabéns.
Depois de mais um dia de trabalho Bárbara regressou a casa, com a melhor amiga, Eva, radiante por tudo aquilo que lhe estava a acontecer. Assim que colocou a chave a porta viu a luz da cozinha acesa, Alfredo estava absolutamente dedicado a preparar-lhe o jantar. As duas mulheres estavam genuinamente surpreendidas, afinal não era todos os dias que tinham um homem a cozinhar para elas. Sentaram-se e jantaram os três de forma calma e harmoniosa, eram uma autêntica família os três juntos. De repente, Bárbara começou a sentir umas cólicas estranhas, contorceu-se na cadeira, Eva e Alfredo levantaram-se imediatamente da mesa, assim que Bárbara caiu no chão, viu Eva e Alfredo a trocarem passaportes e a trocarem beijos e caricias. – O que se passa Alfredo? – Eva sorriu, com aquela expressão fria e distante, e respondeu pelo futuro noivo: - Agora podes tratá-lo por Marcos. – Abandonaram a sala e deixaram-na ali, deitada no chão cheia de dores, em completa agonia e prestes a perder o maior sonho da sua vida.

quinta-feira, novembro 28

Dupla identidade - Parte 2: Tortura

Ver a arma apontada à cabeça de Eva, fazia Marcos sentir-se impotente: - Por favor não lhe faças mal! – As lágrimas do homem começavam a inundar-lhe a face, e a loira fitava-o com ódio: - Diz onde é que estão! – A arma aproximou-se mais da testa de Eva, até que se ouviu um grito que dizia: - No sótão nº3 do prédio onde nós vivíamos! – Eva olhou para os olhos azuis de Marcos, ele estava aterrorizado, ela própria não se sentia tão assustada quanto ele. A loira travou o revólver e fez sinal aos homens que agarravam Marcos, eles acenaram de volta e começaram a espancá-lo. Eva sentiu-se em dívida para com ele, para além disso estava chocada por saber que outrora partilhava uma vida com o homem que estava a ser espancado, numa tentativa de travar aquela a atrocidade, disse num tom de raiva: - Parem! Ele já vos deu o que queriam! Deixem-no! – A loira olhou para trás, o seu olhar emanava ódio e raiva, continuou a caminhar elegante para a porta, os homens seguiram-na e a cadeira de Marcos partiu-se. Assim que a porta de ferro fechou Eva rastejou para junto de dele e perguntou: - Consegues ouvir-me? – Era quase impossível distinguir as feições dele, apenas se destacavam os seus hipnotizantes olhos azuis, que pestanejaram mal a viram. Ele tentava responder, mas faltava-lhe a força, era totalmente impossível saírem dali.
Passaram largos minutos fechados naquele sítio, Eva queria ouvir respostas, mas Marcos não tinha condições para as dar, enquanto ela tentava ingloriamente retirar as cordas que amarravam as suas mãos e pés, ele recuperava a pouca vida que lhe restava. A corda estava prestes a ceder até que Eva ouviu um sussurro baixinho: - Eva… - Virou-se repentinamente para encarar o moribundo e respondeu: - Sim… Sou eu… Como te sentes? – Marcos sorriu e respondeu: - Muito melhor… – Eva sentiu que aquela frase era um cliché incomodativo, principalmente porque não se lembrava dele, por isso perguntou: - Quem é aquela mulher? O que é que ela quer? – Os olhos de Marcos escureceram, ele pensou por segundos que ela lhe ia perguntar como tinham sido os tempos de casamento, a ilusão era tudo o que lhe restava. Depois da desilusão instalou-se o medo; como é que ele lhe iria contar a verdade?
Bárbara saiu do seu Lexus preto e caminhou pelo passeio com os seus quatro guarda-costas, finalmente tinha conseguido a vingança que queria, roubar tudo o que podia à antiga amiga, tal como ela lhe tinha roubado o amor da sua vida. A perda de memória que lhe tinha causado foi apenas um bónus, o grande golpe estava prestes a acontecer, no momento em que abrisse a porta daquele sótão.

quarta-feira, novembro 27

Dupla Identidade - Parte 1: Esquecimento

Eva olhou para o espelho e ficou hipnotizada com a escuridão dos seus olhos, não sabia o que pensar, quem era aquele homem que a cumprimentava e observava todos os dias no café? A sua memória estava longe de querer regressar, ela estava perdida no esquecimento, sem esperança de recuperar o passado. Desde a sua queda e da consequente amnésia que se sentava na mesa do canto, e ele sentado no balcão, observa-a todos os dias à mesma hora. Era assustador, arrepiante, ele parecia conhece-la, ela ignorava o nome dele. Saiu da frente do espelho e vestiu o casaco de caxemira comprido, com umas moedas no bolso, a camisa de dormir por baixo, as botas altas, o cachecol e o cabelo apanhado era tudo o que precisava para se afogar num café expresso sem açúcar. A doce e suave ignorância da vergonha do seu passado confundia-se com a amarga solidão que sentia, caminhou em passos largos e pesados até chegar ao cruzamento, assim que dobrou a esquina, para percorrer um atalho até às traseiras do café, foi puxada por um alguém encapuçado e vestido de negro que lhe tapou a boca. Ela só conseguia pensar em dar-lhe tudo o que ele quisesse para que não lhe fizesse mal, mas antes de conseguir reagir ele sussurrou-lhe ao ouvido: - Nem penses em gritar Eva, sabes do que sou capaz. Onde é que estão? – Com isto destapou-lhe os lábios e Eva respondeu assustada: - O quê? – O homem voltou a tapar-lhe a boca e assobiou. Após o agudo som apareceram mais três homens e uma mulher que a pontapearam fervorosamente, até que uma voz feminina lhe puxou o cabelo e disse: - Vamos levá-la até que nos digam onde estão. – Segundos depois de mais uma forte pancada na cabeça Eva deixou-se ir, a escuridão voltou a envolve-la.

Abriu os olhos e começou a sentir o corpo dorido, amassado de tantos pontapés, as mãos e os pés atados e o seu cabelo desgrenhado anunciavam uma breve tortura. Com alguma dificuldade conseguiu virar-se para a porta e, subitamente, lá estava ele de novo, o homem que a observava todos os dias no café. Sentado numa cadeira, amarrado, ensanguentado e amordaçado. Eva tinha a garganta seca, o frio gelava-lhe o nariz e as mãos, a sua voz rouca e desesperada perguntou em modo de sussurro: - Ei! Tu aí! – O homem moribundo levantou o olhar e pousou-o nela. – Consegues chegar a cadeira para aqui? Eu solto os teus pés, e depois tento as mãos. – O homem de olhos azuis pareceu desesperado, pareceu reconhece-la novamente e surpreendido por vê-la ali. Rapidamente começou a puxar a cadeira para junto dela, o som que ecoava entre aquelas paredes dificilmente passaria despercebido. Enquanto ele lutava para chegar junto dela, e ela dele, ouviram-se passos nos corredores do outro lado da porta, a fechadura rodou vagarosamente e do outro lado estava novamente a mulher e os quatro homens. Eva e o homem de olhos azuis olharam para eles aterrorizados e depois um para o outro, foi nesse momento que Eva reparou no olhar de preocupação que assombrava o moribundo. – As botas pontiagudas, altas e de salto agulha da mulher loira caminharam em direcção a ela, os quatro homens agarraram o moribundo e destaparam-lhe a boca, pelo que ele gritou: - Não lhe faças mal! A culpa não é dela! Ela já não sabe de nada! – A mulher parou, rodou a cabeça para trás, retirou um revolver do bolso do casaco, sorriu e respondeu: - Diz-me onde é que estão Marcos, ou a tua mulher vai conhecer o conteúdo da minha arma. – Apavorado, Marcos olhava para aquela que outrora tinha sido a sua esposa, o sacrifício de desaparecer da memória e da vida daquela que amava, não tinha sido o suficiente. Já não era só a culpa que o corrompia, agora também o medo parecia querer apoderar-se dele.

Pequenas Histórias Originais - Catarina R.P.

quarta-feira, novembro 20

Disconnect - Desligados

Unidos online, mas separados na realidade.

Henry Alex Rubin é um realizador pouco conhecido, com um tímido trabalho que consegue chegar aos mais ínfimos problemas da sociedade. Este filme demonstra como o mundo virtual tomou o lugar das longas conversas à lareira, os sons dos chats roubaram as palavras sinceras e o contacto emocional verdadeiro e prolongado foi substituído por relações efémeras e precoces.
A construção emocional de todos nós é feita de longas e construtivas conversas, de partilha de histórias e momentos, de caricias mais ou menos convencionais e discussões pessoais ridículas ou não. Alguém que passa o tempo a partilhar estados irrelevantes, alguém que se afoga em imagens em vez de se rodear de pessoas e que movimenta vídeos de forma a revelar o que sente não pode ter o mesmo amadurecimento emocional que alguém que encara gente, que as conhece e que se relaciona mal ou bem com cada uma delas. É interessante como tudo no inicio começa com toda a gente a comunicar virtualmente e no fim todos têm necessidade de se encontrarem pessoalmente e se conhecerem, a realidade é que nem tudo o que achamos que conhecemos é a verdade, e isso gera insegurança, incerteza e violência.
Um argumento envolvente com uma realização e fotografia ainda um pouco insensatas. Interpretações que oscilam entre o bom e o excelente e uma banda-sonora que prima pela simplicidade.
Disconnect é a hipócrita metáfora de uma sociedade esfomeada de compreensão, compaixão e amor. Um filme que despe os sentimentos que inundam o nosso quotidiano como; o medo, a vergonha e sobretudo e principalmente a solidão. Porque comunicar não é estabelecer laços, ainda que ambos queiram tocar-se.

quarta-feira, novembro 6

Ripper Street

The Original British Drama que começou há um ano e eu só me apercebi da sua magnificência agora...

Ripper Street é a típica série inglesa que tem um tema cliché, mas foge ao convencional. Comecei a ver há pouquíssimo tempo e já consegui actualizar-me até ao novo episódio que saiu esta semana. Para além de ter como tema central o Jack The Ripper tem outros casos interessantíssimo de seguir e desvendar, é no fundo uma espécie de Sherlock Holmes com um argumento mais inteligente e profundo e com actores principais e secundários que são fabulosos, falo obviamente de Matthew Macfadyen, Jerome Flynn e Adam Rothenberg. Conheço trabalhos anteriores de todos eles e tenho a dizer que Rothenberg me surpreendeu bastante pela positiva, absolutamente irreconhecível nesta personagem. Quanto a Flynn e Macfadyen fico-me pelo meu primeiro comentário: "Isto só vem confirmar que eles são brilhantes!", especialmente o segundo pelo qual tenho um especial carinho cinematográfico.
Cada vez mais abandono as séries Americanas para começar a deliciar-me com as Inglesas, desde mini-séries da BBC até as mais badaladas, não consigo deixar de pensar que cada vez mais a televisão inglesa supera (pelo menos em qualidade argumentativa) a americana.
A primeira temporada começou bem e acabou ainda melhor, a segunda está a caminhar a passos largos para ser uma magnifica e agradável surpresa.
Brevemente estarei de novo a comentar.

sexta-feira, outubro 11

Perfect Sense - O Sentido do Amor


E se o último sentido que restasse fosse sentir?

Perfect Sense tem um título que sugere um romance intemporal, na realidade é um drama apocalíptico com uma profunda mensagem social, algo a que não estamos habituados em filmes do género. O realizador de Young Adam, regressa com um filme diferente e pouco convencional, que privilegia o cinema inteligente e sonhador.
Esta longa metragem tem um argumento que eu considero inovador e revelador, perde na realização que se dispersa do essencial, e na fotografia banal sem nada a acrescentar, ganha nas interpretações de excelência (Eva Green e Ewan McGregor) e na banda-sonora que envolve, assim como os longos silêncios.
O retrato de uma sociedade sem emoções, sem ligações, sem sentimentos e sem sentido, o percurso do regresso do homem à incapacidade de sobreviver, restando-lhe apenas e somente a sombra de um amor que promete ser efémero. 
Sobra-nos contemplar a impressionante capacidade do ser humano em se adaptar tão facilmente, a flexibilidade anatómica e fisiológica dos nossos corpos chega a ser incrível. No entanto, a nossa capacidade de amar e ser amado fica muito atrás de todos os outros sentidos, o raciocínio emocional ganha-se e perde-se com uma vertiginosa velocidade, parecendo que só quando não resta mais nada é que conseguimos dar o valor ao que é realmente importante, e o que significa para nós o amor de alguém, o grande senão de tudo isto, é que quando isso acontece a adaptação já não é possível e chega a morte para consular a nossa felicidade.
Um filme com uma mensagem avassaladora, mas que por vezes se perde em momentos confusos e superficiais.

quinta-feira, outubro 10

Inside the Coven


Achei este video interessante...

American Horror Story - Coven Review


"Não acredito em bruxas, mas que elas existem..."

Ryan Murphy regressa ao pequeno ecrã, com um elenco de mulheres que dominam o público que uma forma chocante. Kathy Bates é a maior e melhor aquisição desta temporada, que promete ser recheada de terror no feminino. Espectadores atentos à série sabem que é comum todos os primeiros episódios serem misteriosos e arrepiantes, este não foi excepção, deixando em aberto muitas questões e acontecimentos maquiavélicos por desvendar.
Algo que achei particularmente interessante é a subtileza com que é introduzida a natureza assassina das mulheres (não muito explorada no cinema), a forma abrupta como se apresenta a obsessão pela beleza e juventude, a revolta e choque de ideologias, o sentimento de marginalidade e, o melhor de tudo, a movimentação de sonhos esmagados pela realidade. São também explorados os sentimentos femininos mais negros como a inveja, o ciúme e a vingança, e explora-se o desejo de poder. Um ponto fraco em tudo isto é que temos momentos desconcertantes, mas ainda nada assustadores, esperemos ver isso em breve. Na sombra de Jessica Lange, Kathy Bates, Sarah Paulson e Angela Basset já se erguem performances interessantes como Taissa Farmiga, Emma Roberts, Gabourey Sidibe e a mais amorosa de todas Jamie Brewer. Destaco a breve participação de Frances Conroy que é magnetizante. Chamo a atenção para a fraca presença de Evan Peters nesta temporada, que depois de duas grandes personagens como Tate (Season 1) e Kit (Season 2), fazem parecer que este Kyle é demasiado superficial, ainda não baixo a guarda e espero ver o que reserva o futuro.
Coven promete ser uma temporada sensual, vibrante, tocante e magistral.

segunda-feira, outubro 7

This is the End - É o Fim


Seis homens, uma casa e o fim do mundo à espreita!

Por onde hei-de começar... Com a tamanha desilusão que é este filme, é complicado escolher uma ponta sem nódoa. O filme começa mal, fica melhor, mas a verdade é que o fim é uma autêntica decadência. 
A comédia não é um dos meus fortes, no entanto sou uma adepta de James Franco e Seth Rogen, a dupla foi o motivo que me levou a ver este filme. Para desilusão não existe sentido no argumento, não existe uma acção interessante, não existem momentos hilariantes e os efeitos especiais são tão maus que faz lembrar os filmes dos anos 90. Só nos proporcionam raros momentos engraçados, uma forte dose de piadas despropositadas e uma desconexão de cenas inexplicável.
Este filme relembra os novos Scary Movies, em que o tema é o fim do mundo. Sinceramente não sei se foram as minhas altas expectativas de uma comédia inteligente que acabaram por não ser satisfeitas, ou se de facto estamos perante um fiasco cinematográfico. A verdade é que o tema, e algumas das cenas, tinham algum potencial e foram arrasadas por falta de experiência, deitando tudo a perder.
Não esperem um filme hilariante e fantástico, esperem uma coisa mais fraca e vão ver que até se irão rir.

segunda-feira, setembro 23

Dexter Series Finale Review - O Final de Dexter

O pecado não é absolvido, é amadurecido pela dor.

Termina aquela que para a maioria de todos nós é a melhor série dos últimos anos, e uma das melhores de sempre. Dexter primou por nunca perder o ritmo, o interesse ou a originalidade. O percurso conturbado e complexo de um homem que aprendeu a amar, a crer e a sonhar, um caminho que dificilmente vamos esquecer.
Este final dos Morgans foi fascinante, o elo entre os dois irmãos, as consequências das suas acções, a dormência das suas palavras e o peso das suas consciências foi algo que tornou este final tão especial. Mas nem tudo são rosas neste final de Dexter, a morte de Debra é o clímax de todo o episódio e talvez de toda a série, mas honestamente foi a única coisa que fez sentido neste final, a viagem da Hannah com o Harrison não fez grande sentido, assim como a súbita e misteriosa sobrevivência de Dexter à tempestade, ainda assim consigo arranjar uma explicação para este fim, ainda que me pareça um pouco forçada. O milagre não se deu porque o serial killer merece viver, mas sim, porque ele merece sofrer; e que maior sofrimento do que viver só, sem um veio de coragem para se suicidar? Talvez resida ai a grande mensagem desta magnifica série. Apesar dos episódios anteriores serem um pouco descabidos e irracionais, parece que no meio do caos, os realizadores e argumentistas encontraram a harmonia.
Tenho ainda a lamentar que tivessem deixado a personagem de Batista e Masuka ficarem sem grande sentido, sobretudo depois do aparecimento da filha de Masuka, que ficou completamente descontextualizado na narrativa.
Destaco Jennifer Carpenter pela sua magnifica actuação ao longo de toda a série, assim como Michael C.Hall, que dispensa qualquer comentário ou elogio, porque a sua supremacia é indescritível.
Despeço-se daquela que faz parte do meu role de séries favoritas e da personagem que mais marcou no pequeno ecrã.

Até sempre Dexter Morgan!

terça-feira, setembro 10

The Butler - O Mordomo

A vida de mordomo elevada ao seu tímido esplendor.

Lee Daniels regressa com mais um fabuloso filme sobre a comunidade africana nos Estados Unidos da América, e como sempre, fez jus ao seu elevado nome como realizador.
O filme não é completado por grandes cenários é sobretudo sustentado por excelentes performances, sobretudo do grande e glorioso Forest Whitaker, também marcantes interpretações de Jane Fonda, Alan Rickman, Robin Williams, John Cusack e Terrence Howard. E uma banda-sonora maravilhosa, com assinatura Portuguesa de Rodrigo Leão que, tal como afirmou Oprah Winfrey, "eleva o filme" a uma magnificência fabulosa. Ainda por cima de tudo isto repousa um argumento fantástico, sustentado por temáticas controversas e já algumas vezes retratadas no cinema contemporâneo, tais como, a óbvia discriminação social, os movimentos  políticos e estratégicos e, sobretudo, o contraste da realidade feminina e masculina dos afro-americanos nos anos 60.
Toda a história envolve, comove, insiste em fascinar e em tornar o filme mais humano. E essa sim, é a verdadeira essência do cinema, questionar, criticar, sofrer e transformar, provando que existe mais no homem para além daquilo que se vê.

sábado, agosto 17

The Conjuring

Há coisas que a razão não explica e a religião mantêm em segredo...

The Conjuring é o novo filme de terror de James Wan, o jovem realizador que deu que falar em Saw, Insidious e Dead Silence, com diversos prémios em filmes de terror Wan arrisca num tema controverso e sempre aterrorizante, com actores que merecem um honroso destaque Vera Farmiga, Patrick Wilson e para Lili Taylor, que se supera enquanto actriz e enquanto personagem.
A história antes de mais é baseada em factos verídicos narra a história de um casal investigadores do paranormal que se vêem confrontados com um dos maiores desafios das suas vidas, um espírito que assombra uma família desesperada para sobreviver a esta maldição. O argumento está perfeito, as interpretações estão hipnotizantes, o exorcismo está bem realizado e a fotografia muito interessante, efeitos especiais discretos e um suspense que cresce são a chave para fazer uma filme muito próximo do magistral.
Com tantos filmes de terror a sair todos os anos todos eles horrivelmente mal feitos, digamos que este filme é uma lufada de ar fresco no género, chega e ser uma raridade mesmo. Apesar de um final previsível os dez segundos antes do filme deixam o espectador arrepiado e com alguma expectativa, o que não deixa de ser interessante.
Recomenda-se para os fãs do género, para os cépticos e os para religiosos mas, não se recomenda aos medrosos, esta película pode transtornar as mentes mais sensíveis, e deixar algumas noites em branco, especialmente quando as fotografias das pessoas a quem isto aconteceu aparecem no final...

sábado, agosto 10

O Maravilhoso Mundo do Absurdo - Parte 8 - Final

Dulius estava sem discurso, não queria magoá-la mas, ao mesmo tempo não lhe queria mentir, o dilema interior fê-lo optar pelo mais correcto:
- A tua mãe morreu...
Éter havia previsto o que o rapaz iria dizer, sem verter uma única lágrima perguntou:
- Como?
Assim que ela proferiu estas palavras apareceu um anão correndo desenfreadamente pelo corredor, disse num tom ofegante e desesperado:
- Príncipe, o rei espera por si, apresse-se!
Dulius puxou Éter e correu em direcção ao quarto do pai. Deitado estava um homem grisalho com os cabelos longos e barba igualmente longa, os olhos encovados e os lábios descolorados previam um desfecho trágico. Assim que o príncipe se aproximou da beira da cama, o rei retirou um anel de esmeralda e passou-lho para a mão, Dulius deu a mão ao pai e sem mais demora o rei deu o seu último suspiro de vida.
Éter tinha assistido à morte do rei de Darnatus e à passagem do testemunho, o príncipe era agora rei e ela era agora rainha. Aquilo que queria desesperadamente evitar acabava de se tornar o seu destino. Ao observar o olhar de medo e desespero em Éter, Stratius aproximou-se e disse:
- O tempo anda para a frente mas, também volta para trás... Quatro é o número do passado...
A princesa olhou para a ampulheta que tinha ao pescoço, posou novamente o seu olhar em Dulius, e percebeu que o amava, que queria passar o seu tempo com ele, a única questão era que não tinha vivido a sua vida com a ganância de querer mais, a verdade tinha arruinado com ela mas, o futuro tinha-a elucidado.
Aproximou-se do príncipe, agora rei, e puxou-lhe o cabelo para trás, acariciou-o no rosto com a mão direita e com a esquerda deu quatro voltas à ampulheta. Ouviu ao longe uma voz que chamava por ela, fechou os olhos e quando abriu, viu Insanis do outro lado da grade, com um sorriso rasgado e orgulhoso:
- Então princesa já decidiu que caminho quer seguir?
Éter olhou para o seu vestido verde, sorriu, finalmente tinha decidido e, sabia o que queria. O que fariam as cinco voltas?

Final (Indeciso)

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sexta-feira, agosto 9

O Maravilhoso Mundo do Absurdo - Parte 7

As lágrimas escorriam pela face de Éter o mundo girava em seu redor, não fazia ideia do que estava a acontecer tudo continuava escuro e medonho, não parecia estar a regressar a casa. Quando tudo ficou estático viu-se no interior de um palácio todo negro e espelhado, olhou em volta e viu Dulius a esticar-lhe a mão:
- Vamos? - Éter olhou-o confusa. - Não vou a lado nenhum contigo!
Dulius estava confuso: - Mas estivemos juntos todo este tempo e agora que o meu pai está assim... Tenho de assumir o trono, eu percebo que tenhas de regressar mas....
Éter tapou-lhe a boca com a palma da mão e olhou para o que tinha vestido, os sapatos vermelhos, as luvas igualmente encarnadas, as calças negras e o corpete metalizado faziam com que ela parecesse uma... não poderia ser, era impossível, ela estava em Darnatus, estava vestida como uma guerreira e o príncipe estendia-lhe a mão como se... - O que é que se passa?
Dulius franziu a sobrancelha: - O meu pai está na cama, vai-me passar o testemunho agora amor.
Éter arregalou os olhos: - Amor?! - Foi nesse momento que o príncipe olhou para o colar de Éter, a ampulheta no seu pescoço...
- Tu não te lembras de nada... Andaste para a frente no tempo. - A expressão no rosto do rapaz era de tristeza e desilusão.
A princesa tinha rodado a ampulheta ao ponto de ir para o futuro, a verdade era que tinha escolhido ficar em Darnatus, com o príncipe responsável pela morte do seu pai, ela julgava sentir algo pelo príncipe Litius mas, a verdade é que eram primos. Seria possível ela ter-se apaixonado por Dulius? Estaria ela disposta a casar com ele? Não fazia ideia do que estava a acontecer, que rapariga era aquela vestida de negro, o que era ela capaz de fazer? Que idade tinha? Que ambicionava? Que sonhos tinha? Estava perdida no espaço e no tempo, queria regressar a casa mas, não sabia como.
- Há quanto tempo estou eu aqui? - Perguntou Éter confusa e com receio da resposta.
O rosto de Dulius entristecera, estava prestes a perder o pai, a ser rei e a perder a mulher que amava, foi então que Stratius respondeu pelo seu amo: - Um ano... - Éter olhou para a sua mão esquerda, quando a abriu uma nuvem laranja emanou do seu interior. - Eu tenho...
Dulius completou-a: - Sim, tu tens o poder do quinto elemento, Lítius tentou roubá-lo mas, juntos conseguimos impedi-lo. Está preso com o pai nas masmorras de Darnatus. Matiquis apoderou-se do reino temos de a manter afastada. - E Dominus? A minha mãe? - O príncipe negro baixou novamente os olhos e não respondeu, não queria partir o coração da sua amada.

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quinta-feira, agosto 8

O Maravilhoso Mundo do Absurdo - Parte 6

Stratius levou Éter até uma taberna bastante marginalizada e com o papel de parede arranhado, toalhas de mesa manchadas de negro e nódoas cinzentas no tecto, relutante e amedrontada a princesa seguiu a serpente até ao balcão de pedra negra:
- Onde está ele? - Perguntou ao homem barbudo do outro lado do balcão. Ele acenou para o lado esquerdo sem proferir uma única silaba. Quando Éter rodou a cabeça viu uma sombra num dos cantos, sentada num banco encostada à parede, Stratius rastejou até lá e disse:
- Amo acho que encontrei uma foragida...
- Eu não sou nenhuma foragida! - Alertou Éter.
O homem saiu do escuro que o cobria e a princesa conseguiu ver-lhe o rosto, tinha uma cicatriz do lado direito em meia lua desde a testa até ao queixo, os olhos eram de um vermelho rubi, a cara larga e morena, com um nariz pontiagudo e largo davam-lhe um ar pesado e mafioso, as suas mãos largas dirigiram-se ao colar da princesa e num tom rouco e asqueroso disse:
- Vejo que vens de Dominus... Como te chamas?
- Éter.
- Éter? - O homem parecia conhecer o nome, a surpresa foi instantânea. - A princesa de Dominus?
- Sim. Eu própria. - Disse a rapariga de forma prepotente.
- Não te recordas de mim? - A confusão apoderou-se da jovem.
- Não... Devia? - O homem entristeceu e respondeu:
- Sou Dulius. Filho do ex-marido da tua mãe, sou o bastardo que nasceu fora do casamento a razão porque eles se separaram e obrigou a rainha a criar Dominus, ela separou Merinder em três mundos, em vez de dois mas, não havia espaço para mais um então o teu mundo tornou-se absurdo e indeciso, a verdade é que o teu pai é o verdadeiro rei de Luminatus e a tua mãe rainha de Darnatus. O irmão de Casquilos, Lordus, apoderou-se do seu reino, o teu pai não se importou pois tinha a tua mãe e mais tarde nasceste tu. Visitei-te uma vez com Insanis, foi no dia em que recebi esta cicatriz. - Éter estava pasmada com aquilo que acabara de ouvir, o homem era afinal um rapaz a que o tempo não tinha dado juventude, continuou a ouvi-lo sem desfazer a surpresa no seu rosto. - O teu pai não aprovava a minha presença em Dominus, e levou-me de volta. Morreu ao fazê-lo. - Éter enfurecida disse:
- Então foi por tua causa que ele morreu. - Dulius baixou os olhos em sinal de culpa e disse:
- O teu pai morreu em Luminatus às mãos da feiticeira Matiquis, foi a partir desse momento que ela conseguiu ligação com o teu mundo, já com o meu ela não tem qualquer ligação, visto que não matou nenhum membro real. O teu pai morreu para me fazer regressar ao meu mundo. É por isso que vais receber o teu poder, tudo o que te contaram de receberes os poderes da tua avó o alinhamento dos planetas, isso é tudo mentira, a verdade é que receberás o teu poder porque ele pertencia ao teu pai, ele guardou-o antes de regressar comigo a Darnatus, parece que pressentiu que algo iria acontecer... - Éter começou a chorar, não queria mais ouvir o que o rapaz tinha a dizer. - Chegámos a brincar juntos. Além disso o teu pai regressou a Luminatus para que não me magoassem se eu por qualquer razão lá voltasse, a verdade é que isso lhe custou a vida. - Disse o rapaz na esperança de que Éter o pudesse perdoar. Em vez disso a rapariga rodou a ampulheta mais vezes do que aquelas que deveria, no total foram seis, foi então que o inesperado aconteceu. 

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quarta-feira, agosto 7

O Maravilhoso Mundo do Absurdo - Parte 5

Darnatus prometia ser ainda mais sombrio e perigoso que Luminatus mas, isso não iria impedir Éter de explorar o território. Levantou-se do chão com o seu vestido branco manchado de negro, um dos sapatos com o brilho perdido, o seu cabelo irisado com nós, que mais tarde iram ser penosos de remover. Começou a caminhar em direcção a algo que não sabia o que era, após ter caminhado uns longos metros tropeçou, algo áspero começou a entrelaçar-se nas suas pernas:
- Quem és tu? - A voz era rouca e carregada nos S's.
- Éter!
- Mas que raio de nome é Éter? - Quando olhou para os seus pés viu uma serpente gorda de olhos rasgados, cor de mel, pele azul celeste e escamosa. Éter começou a ficar assustada e perguntou:
- Por favor não me faças mal!
A cobra sorriu expondo as suas presas, desentrelaçou-se das pernas despidas e trepando o vestido, aproximando-se do rosto da jovem disse:
- Quem és tu? Sem mentiras desta vez. - A ameaça fazia-se notar no tom de voz.
- O meu nome é Éter e não pertenço a esta terra... - Os olhos da rapariga estavam aterrorizados e a respiração começava a ser ofegante.
- Estás a dizer a verdade... - A serpente expressou intriga e começou a escorregar em direcção ao chão, quando terminou ergueu a cabeça e disse: - O meu amo vai gostar de te conhecer, apesar do nome esquisito não és nada de se deitar fora... - Revelou um sorriso matreiro.
- Quem é o teu amo?
- Vejo que não és mesmo destas bandas se não saberias quem eu sou e quem é o meu amo... O meu nome é Stratius e aconselho-te a seguir-me se não queres provar o veneno das minhas presas... - Éter seguiu a serpente sem questionar.
Em Luminatus o príncipe informava o pai da fuga da princesa de Dominus, Lordus ficava enfurecido a cada palavra de Lítius e de repente Matiquis apareceu e disse:
- Tens de encontrá-la precisamos do seu poder.
O príncipe expressou surpresa e disse:
- Mas, ela ainda não tem poder nenhum.
Matiquis aproximou-se do rosto do rapaz e proferiu uma palavra:
- Encontra-a!
- Como? - Respondeu o jovem assustado.
A mulher arqueou as costas e retirou de uma das suas mangas uma bolsa púrpura com fios dourados dizendo:
- Esta areia permite-te viajar para Darnatus e regressar.
- Darnatus? - Os olhos do rapaz ficaram assustados e receosos, duplicaram o seu tamanho em milésimos de segundo, não era o sítio que ele esperava visitar. O rei também demonstrou preocupação no seu rosto e perguntou:
- Como sabes que ela lá está? Afinal não temos ligação com aquele mundo!
Matiquis sentiu-se ofendida com a questão e, respondeu com desdém:
- Porque ela não está em mais lado nenhum...

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segunda-feira, agosto 5

O Maravilhoso Mundo do Absurdo - Parte 4

Éter sentou-se à mesa observando o corrupio de pessoas a prepararem a mesa de forma frenética mas, delicada. De repente o rei entrou sozinho no salão, parecia estar de braço de dado com alguém contudo, na verdade não existia ninguém a seu lado, o que fazia com toda aquela situação fosse perturbadora. Lítius aproximou-se de Éter e sussurrou-lhe ao ouvido:
- O meu pai ainda age como se a minha mãe fosse viva...
Éter ficou confusa, apesar de tudo não demonstrou nem por um segundo aquilo que sentia. O rei sentou-se alegremente na cabeceira da mesa trocando olhares provocantes com a outra ponta, mais uma vez vazia. Quando repararam tinham à sua disposição todo o tipo de iguarias, desde bolos a frutas. Éter perguntou com surpresa e relutância:
- Aqui comem plantas e os seus filhos, os frutos
- Sim, aqui não é como em Dominus, as plantas não falam. - Respondeu o príncipe.
- Mas têm vida e sentem? - Perguntou Éter mais uma vez relutante à ideia. - Como sabem que em  Dominus as plantas e frutos falam?
O rei Lordus trocou-o olhares de preocupação com o lugar vazio à sua frente e respondeu quase ofendido:
- Eu sei tudo o que se passa neste e no outro mundo. E é claro que as plantas aqui não sentem!
Éter sorriu cinicamente e não ficou contente com a resposta, afinal ele sabia tudo sobre Luminatus e Dominus mas, e Darnatus? Não queria fazer mais perguntas com medo da reacção do rei e do príncipe afinal estavam a ser tão amáveis e conscienciosos. Antes de começar a comer aquilo que considerava ser um crime horrendo, pediu para antes de mais visitar o jardim que conseguia ver pela varanda do salão, quando se levantou com o príncipe e o rei e reparou que os arbustos e árvore formavam um complexo labirinto, começou a temer aquela visita.
- Vamos entrar? - Perguntou o príncipe eufórico.
- Sim... - Respondeu Éter reticente.
Ambos caminharam para o exterior e o rei ficou no conforto da varanda, no topo da escadaria, ao seu lado estava a  invisível feiticeira Matiquis, assumindo a forma da sua falecida esposa.
- Só temos que esperar que ela se apaixone por ele, e depois tudo o que é dela será nosso. - Disse a feiticeira num tom de escárnio.
- Não achas que Caeruleõ vai ser um problema? - Perguntou Lordus preocupado.
- Ela não sabe onde está a filha, e quando souber vai ser tarde demais. - Disse a feiticeira que sabia tudo o que se passava nos dois mundos.
Quando a princesa entrou no labirinto o medo começou a apoderar-se dela especialmente quando os guardas selaram a entrada do labirinto e os arbustos pareciam gritar de aflição, de repente olhou para o chão e reparou numa flor branca a chorar. Baixou-se pelo que a flor lhe disse:
- Princesa Éter fuja enquanto tem tempo. Este mundo parece são e seguro mas, não passa de uma aparência. Se ficar irá arrepender-se.
- Como sabes o meu nome?
- Todos aqui sabem quem é! E querem roubar-lhe todo o seu poder!
- Mas eu ainda não tenho poder! Além disso o príncipe é um deleite de homem. - Disse Éter corando.
- É isso que querem que pense, que case com ele e unidos os dois mundos, poderão destruir Dominus!
- E como sabes tudo isso?
A flor olhou para cima aterrorizada e murchou. Quando Éter se virou para trás viu o príncipe Lítius.
- Vamos sair daqui juntos princesa? Basta assobiar para a águia nos levar...
Algo no seu olhar tinha mudado, a aflição da flor era legitima e os pratos de frutos também. Éter levantou-se repentinamente e começou a correr, até que um dos arbustos a puxou e disse:
- Rode a ampulheta e volte para casa!
Antes de mais havia um sitio a visitar antes de ir para casa. Rodou três vezes a ampulheta e quando o último grão de areia caiu ela estava num mundo negro, sombrio e obscuro, Darnatus.

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domingo, agosto 4

O Maravilhoso Mundo do Absurdo - Parte 3

A princesa e o príncipe entraram no castelo luminoso e resplandecente, no fundo do salão principal estava um trono prateado com ornamentos dourados, os terminais tinham pedras preciosas e sentado estava o rei, ao seu lado estava um trono vazio e igualmente enfeitado.
- Entrem! - Disse o rei com alguma histeria e boa disposição.
Os guardas permitiram a entrada para a zona íntima do salão depois de ouvirem o seu todo poderoso. Éter estava cega de tanta luminosidade e brancura, olhou para trás e viu os seus passos marcados no chão cal, também reparou numa mulher que seguia quem entrasse no palácio, a sua função era limpar o chão que os convidados pisavam de forma a evitar as marcas negras no glorioso chão. A mulher tinha um aspecto deteriorado e cansado, os olhos encovados, o queixo saliente e pontiagudo e o nariz redondo e largo, eram traços que lhe pesavam tal como o trabalho que exercia. Éter voltou a olhar para a frente e o sorridente rei cumprimentou-a amavelmente:
- Bem-vinda princesa!
A surpresa nascia no rosto pálido da jovem:
- Sua alteza... Perdoe-me mas, como sabe quem eu sou?
O rei Lordus riu-se compulsivamente e o príncipe respondeu:
- Como eu disse o meu pai sabe tudo!
Éter passou imediatamente de assustada para fascinada. Entretanto Lordus disse para um dos seus servos:
- Tragam uns sapatos e roupas para a princesa e preparem o lanche!
- Lanche? Mas eu...
- Insisto para que fique princesa!
Os sapatos chegaram num ápice, era brancos com um gigantesco brilhante no topo, o vestido era também ele branco, redondo, com rendas no terminal, assim como nas mangas, para além disso os acessórios para o cabelo eram pintados de preciosismo, era como se já estivessem à sua espera há algum tempo. 
Entretanto Éter foi levada até ao quarto onde se vestiu, do outro lado da porta esperava-a Lítius. Quando terminou de se arranjar, com a ajuda de uma costureira e cabeleira, o príncipe e Éter caminharam por entre os corredores e escadarias até ao salão destinado para as refeições.
O rei ficara para trás assim como os guardas e a serva que limpava o chão, Lordus disse:
- Guardas! Deixem-nos!
Os homens corpulentos abandonaram o salão e o rei ficou com a mulher:
- Ela chegou finalmente!
Após Lordus proferir estas palavras a mulher desdobrou-se em duas, uma permaneceu a limpar o chão, a outra era pequena, de olhos roxos e cabelo louro, os dedos preenchidos com anéis de rubi e um vestido branco extraordinariamente comprido.
- Que penseis fazer agora alteza? - Disse a mulher num tom provocador.
- Diz-me tu Matiquis! Afinal és quem mais pratica magia...
Sorriram um para o outro, deram o braço e caminharam para o outro salão.

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sexta-feira, agosto 2

O Maravilhoso Mundo do Absurdo - Parte 2

Éter olhou para a ampulheta com toda a cautela e cuidado, como se o olhar pudesse quebrar o objecto, era de bronze, a areia era dourada, era do tamanho do seu dedo indicador e tinha um cordão também ele de bronze, não conseguia ver onde os seus pés pousavam mas, sentia a irregularidade térrea do pavimento. Aquela seria a ampulheta que permitira o Louco viajar pelos três mundos? Só poderia ser. Afinal tinha pedido uma saída e o seu amigo concedera o seu pedido. Impaciente deu dois passos em frente até conseguir alcançar a ampulheta, o tecto tremia e a luz era trémula e escassa, com alguma hesitação pegou no objecto e abraçou-o contra o peito, o inicio do seu sonho tinha agora começado:
- Ele disse duas voltas para Luminatus e três para Darnatus!
A princesa deu duas voltas à ampulheta, quando o último grão e areia caiu favorecendo a gravidade, olhou em seu redor e já não estava escuro, a luz era pura, branca e angelical. Ainda embriagada com a sensação de liberdade e concretização de um sonho colocou o cordão ao pescoço e começou a caminhar entre a vegetação verde e branca, evitara tocar em todas as aquelas formas divinas e permanecia pasmada com tudo aquilo que via, até que num ápice alguém a agarrara e lhe tapara a boca com uma mão branca, complexa, estranhamente reconfortante e quente. Uma voz masculina sussurrou-lhe ao ouvido:
- Quem és tu e o que fazes no meu reino?
Éter esbracejou para que ele a liberta-se e atingido o seu objectivo voltou-se e viu um rapaz ruivo de olhos igualmente alaranjados e uma tez tão branca como a sua. Não conseguia deixar de olhar para ele, parecia tão perfeito e complexo, tão medonho e ao mesmo tempo tão encantador, a sua expressão era de surpresa e admiração, nos seus olhos o interesse estava a nascer:
- Venho do reino de Dominus!
O rapaz riu-se desenfreadamente:
- Dominus? Esse povo ignora a nossa existência!
A rapariga estava agora surpresa:
- Como tens conhecimento disso?
- Porque sou o príncipe Lítius, e os meus pais têm conhecimento de tudo o que se passa nesse e neste reino, têm espiões por todo o lado. Agora diz-me a verdade, quem és e de onde vens.
A rapariga começava a ficar irritada com a arrogância do rapaz:
- Sou Éter! Princesa de Dominus e futura rainha!
O rapaz fitou-a com atenção pôs-lhe a mão na testa e disse:
- Alteza! Perdoou-me a ousadia, deixe-me leva-la até ao nosso palácio e recompensá-la devidamente.
Éter esticou a mão e caminhou com o príncipe até à sua carruagem. Largos quilómetros depois Lítius disse-lhe agarrando a sua mão:
- Aquele é o meu palácio!
Éter olhou para pela janela e viu uma imponente construção em mármore branco, com pilares ornamentados e abóbadas meticulosamente esculpidas, era um sonho tornado realidade.

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quinta-feira, agosto 1

O Maravilhoso Mundo do Absurdo - Parte 1

Era uma vez uma ampulheta, uma ampulheta que estava no cume de uma montanha nas masmorras de um castelo mas, não era um castelo qualquer, era o palácio do reino de Dominus, um reino onde o impossível era provável e o provável impossível. A rainha era chama por Caeruleõ, pela sua obsessão pela cor azul, era uma mulher esbelta, elegante, alta e de uma brancura doentia, os seus olhos eram cor de cereja, tão vivos e aos mesmo tempo desprovidos de alegria. A rainha sofria de dupla personalidade, tanto podia ser generosa como deplorável instantes mais tarde. O seu povo oscilava entre cães e gatos falantes, passando por flores estupidamente tagarelas e até mesmo arbustos amargamente mal humorados. Também tinha humanos entre os seus plebeus contudo, a rainha tentava manter esta espécie bem distante, pois muitos deles ambicionavam o seu lugar, não eram poucos estes ladrões de coroas, e muitos desejavam pedir a mão da sua bela filha Éter. A princesa acabava de completar o seu décimo oitavo aniversário, dezoito anos que não se notavam, a rapariga parecia ter apenas catorze ou quinze anos, herdara da mãe a altura e a brancura, os seus cabelos negros contrastavam com os seus olhos amarelos, que herdara da avó, a personalidade pertencia ao pai. A rapariga não queria ser rainha mas, a hora aproximava-se, cinco horas era tudo o que restava do seu tempo de princesa, tornar-se-ia brevemente na mulher mais poderosa de Dominus, herdaria os poder material da mãe e os poderes mágicos do quinto elemento, o éter. Herdaria este poder devido ao alinhamento de dois planetas que assombravam o seu reino Sistirus e Nevidis, na cerimónia de sucessão ao trono iriam emergir os poderes que todas as gerações anteriores ambicionavam.
Éter era a escolhida, a prometida mas, não era isso que ela queria, a princesa queria sair de Dominus, queria fugir para longe do reino, talvez para Darnatus, a terra das sombras, ou para Luminatus, a terra da luz. Dominus não era o seu lugar, Dominus não tinha um principio, não pertencia à luz ou à escuridão, e isso perturbava-a. Éter queria ter o poder de escolha, algo que não conseguia fazer no local onde vivia, todos ali pareciam indecisos ninguém era bom nem mau, todos estavam no intermédio das decisões. O médico real chegou a consultar Éter diversas vezes devido à sua insistência na questão e chegara a pensar que a princesa havia enlouquecido, ideia que foi imediatamente alterada pela sua indecisão.
Éter tinha um amigo, um homem especial e diferente, não era indeciso, o seu nome era Insanis, que significava o Louco, o povo chamava-o assim porque ele acreditava na existência de um mundo comum, Merinder, ao qual pertenciam os reinos de DominusDarnatus e Luminatus, que a população dizia não existirem, mas o Louco viajara por lá com a ampulheta amaldiçoada, aquela que a rainha lhe retirou. O Louco só conseguia dizer a verdade e por isso estava destinado a ser prisioneiro para todos o sempre, pois só seria libertado se negasse a existência de tais reinos. Éter visitava-o todos os dias e falara com ele sobre os três mundos. Horas antes da sua coroação Éter voltou a visitar Insanis e chegando junto da sua cela disse:
- Como posso eu escapar disto?
O Louco olhou-a com os seus olhos cansados cor de caramelo, e disse:
- Para chegar à porta tem de caminhar nos degraus. Coloque este anel e pronuncie três vezes, Nunc.
- Nunc?
- Sim...
- Porquê três vezes?
- Três mundos três vezes! E lembre-se princesa, uma volta para Dominus, duas para Luminatus e três para Darnatus!
A princesa olhou-o confusa:
- Voltas aonde?
O Louco sorriu e olho-a com ternura:
- Saberá no devido momento...
Éter pôs o anel e disse com convicção:
- Nunc! Nunc! Nunc!
Tudo à sua volta começou a girar a uma velocidade astronómica, fechou os olhos e protegeu a cara com os braços, quando finalmente parou de girar, olhou em seu redor e estava numa sala escura, húmida e minúscula, a única coisa de se via era uma ampulheta iluminada por um milimétrico buraco na parede.

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sexta-feira, julho 5

Monstros e Companhia - Universidade (Monsters University)


As origens de Sulley e Mike Wazowski.

Monstros e Companhia fez furor em 2001 com o primeiro filme, numa localidade monstruosa em que a verdadeira ameaça é o mundo dos humanos. Agora treze anos depois voltamos às origens da equipa maravilha e percebemos como tudo começou.
O filme é divertido e espelha temas como a valorização pessoal, a amizade, ou a agressividade da sociedade escolar. Consegue ainda assustar os mais pequenos e fazê-los rir segundos depois, é aconselhável a fanáticos dos desenhos animados e para os mais pequeninos. Um forte destaque para a qualidade da animação que está excelente, fazendo-nos mesmo acreditar que todas as paisagens que vimos são reais.
A curta metragem apresentada antes do filme intitulada The Blue Umbrella é deliciosamente divina, vale pena vê-la. Para já apresento um clip...

terça-feira, julho 2

Star Trek - Into The Darkness

"Live long and prosper." - Spock

Star Trek é a melhor série de ficção cientifica alguma vez criada na televisão internacional, dificilmente será atingida a magnificência que durante anos marcou a diferença na science fiction tal como a conhecemos hoje.  Já dezenas de filmes e séries foram realizadas depois de Star Trek - The Original Series, muitos capitães ocuparem a cadeira de Jim Kirk, e em 2009 surgiu a prequel que surpreendeu até os mais cépticos, com um elenco que foi fiel às personagens originais com performances consideradas excepcionais, efeitos especiais que conseguiram superar as especulações e um argumento forte e coeso. Neste Into The Darkness não somos surpreendidos, nem as nossas expectativas são superadas, o que não é difícil visto tratar-se de uma sequela do primeiro. A ideia para o argumento ser a origem de Khan e o seu primeiro encontro com a tripulação da Enterprise é fascinante mas, falta-lhe coesão e fluidez. Por outro lado, as interpretações são novamente arrebatadoras, com um honroso destaque para Zachary Quinto, que é um Spock impecável, seguido de Chris Pine, Benedict Cumberbatch e Zoe Saldana. Existe uma química gigantesca entre todos os actores, e o filme deve a maior parte do seu sucesso às magnificas performances. A brevidade da aparição de Leonard Nimoy não afecta em nada a sua supremacia em cena, um momento curto mas, poderoso. O restante crédito do filme vai sobretudo para os efeitos especiais e a banda-sonora, ficando o argumento para último lugar, com uma previsibilidade no diálogo e no próprio enredo.
Star Trek é uma lenda no mundo da ficção cientifica sendo sempre muito complicado alcançar as expectativas dos fãs, que são sempre muito exigentes e criteriosos. J.J. Abrams faz uma realização interessante mas muito próxima da sua área de conforto, o que torna tudo um pouco previsível.
Em suma, o filme é interessante para quem nunca viu as séries e filmes anteriores, fantástico para quem gosta de J.J. Abrams, e visível para os fãs de Star Trek. Como admiradora incondicional da série é um filme interessante mas, esquecível, como apreciadora de J.J. Abrams é notável.

"Fascinating is a word I use for the unexpected, in this case I would think interesting would suffice" - Spock TOS



segunda-feira, julho 1

Dexter Season 8 Premiere Review

A descoberta da verdadeira essência é a contagem decrescente para a resolução de tudo...

Dexter Morgan é confrontado com Evelyn Vogel, a mulher que o desenhou e agora regressa para observar (ou talvez usar) a sua criação. Enquanto uns perseguem o nosso Serial Killer outros fogem e escondem-se dele, falamos obviamente de Debra Morgan que se vê confrontada com um lado mais negro de si própria, não conseguindo sobreviver com esta realidade. A personagem tem vindo a crescer ao longo da série tornando-se a chave vital da moralidade e do "bom comportamento", no entanto, tudo foi arruinado em segundos quando Deb decide salvar o irmão e terminar com a vida de LaGuerta, é dessa decisão que a personagem não consegue definir onde a sua capacidade ética e moral funcionou, criando uma série de complexas emoções que ela não consegue decifrar e superar. Contudo, o verdadeiro problema reside em Dexter, o afastamento da irmã criou uma cadeia de comportamentos violentos que poderão vir a tornar-se perigosos e eventualmente desmascarar a personagem, é a asfixia permanente e lenta de perder o controle. De um lado temos um desgosto emocional que leva a ruína e à demência, por outro temos um perigo eminente, descontrolado, que poderá levar à cadeira eléctrica.
Tudo aquilo que vimos ao longo de sete temporadas começou nesta última, a criação do código, o equilíbrio emocional, a admiração doentia, a obsessão pela perfeição e a criação de laços. Tudo começa e acaba num ciclo de frustração.
Começou de forma brilhante, como sempre, e promete ser fabuloso. 
Permanecem as questões: Onde está Hanna McKay? Será que Quinn e/ou Batista vão descobrir? Será que o Harrison vai ser o próximo Serial Killer? Irá Deb denunciar o irmão? To night is the night of what Dexter?

The Quartet

Como a música pode rejuvenescer...

Mais um filme que apresenta um elenco de luxo e que nos ensina como envelhecer com dignidade e sem frustração. Simples, monótono, complexo e próximo do fantástico, com momentos hilariantes e outros mais aborrecidos, o Quarteto narra a história de músicos reformados que se vêem confrontados com o seu envelhecimento e todos os problemas que surgem com isso. As recordações de glória passada, de momentos mais ou menos felizes, de amizades perdidas e reencontradas, de amores que se julgava não valerem nada e que no fim são tudo o que se tem. É uma história sobre o arrependimento e a mágoa de ter sido jovem e arrogante e querer ser velho e feliz. Um filme complicado para os mais jovens mas, perfeito para uma idade mais experiente e madura.
Há que salientar que Maggie Smith está absolutamente divina e perfeita neste filme, como sempre.

Por vezes é na simplicidade que está o verdadeiro sentido da vida.

domingo, junho 30

Dexter Season 8

The beginning of the end starts to day... Tomorrow we will talk about it...

terça-feira, junho 18

The Borgias - Season and Series Finale

Atenção contém Spoilers...


Infelizmente terminou....

Seja falta de orçamento ou audiência The Borgias - The Original Crime Family terminou. Uma das mais monumentais séries de época terminou, infelizmente não foi o que todos os admiradores ambicionavam, esteve muito perto de ser glorioso mas, foi arruinado.
Cesare Borgia foi a personagem chave desta temporada, bem como Catherina Sforza, ambos conseguiram terminar de forma magistral este fechar de ciclo mas, não foi suficiente para ser perfeito. A jaula dourada de Sforza, a sua indomável personalidade, o seu desespero e orgulho, conduziram a conclusão da sua personagem à glória. The Dark Prince dominou o primeiro plano, torturou as mentes mais sãs, desmoronou castelos, construiu prestigio e partiu corações, foi uma peça chave em todo um puzzle de intriga.
Todo o episódio foi rodeado por mistério, intriga e uma fascinante cadeia de eventos catastróficos, foi um merecido final até aos últimos segundos.
Quando Lucrecia Borgia coloca o veneno no copo e diz: "Is it all I'm now brother? A Borgia..." se tudo terminasse ai tínhamos tido um magnifico final, Mas, segundos depois, um copo derramado, um corpo inerte que clama palavras de arrependimento e dor dizem: "I will never wash this blood away." "You will be naked, clean and bloodless again. And mine." arruínam todas as expectativas de um final bíblico.

Li o final planeado para os Borgias e teria sido perfeito, se o público ou a crise o tivessem permitido, mesmo assim foi uma série fantástica, que mereceu destaque e espera-se ter ainda a sua tão merecida conclusão. 

quinta-feira, maio 30

To the Wonder



O que é o amor? Para que serve? Porque nos controla? Porque nos constrói? Porque nos corrói?

Terrence Malick superou-se no seu anterior filme a Árvore da Vida, habituou-nos à poesia cinematográfica, ao despertar da mente e dos sentidos. Chegou-se a pensar que não se superaria novamente mas, conseguiu.
To the Wonder é uma narrativa atraente, envolvente, cativante, espiritual... É um suave caminhar entre almas desesperadas, sombras duvidosas, destinos embrulhados como nós, o amor é o começo e o fim.
O desespero da personagem de Afleck reflecte-se na sua inexpressividade facial, há confusão, dúvida, o seu corpo por outro lado responde aos mais simples estímulos, seja de que natureza for, a dualidade da sua personagem é também a dualidade da sua forma de estar. Rachel MacAdams é simples, rural, a sua sensibilidade é reflexo da sua inocência e pureza, quebrada pelo demónio da paixão. Olga Kurylenko superou-se com momentos magníficos, apaixonantes sorrisos, abraços que não precisam de banda-sonora, somando-lhes um desespero de encontrar rumo, de desistir do que se ama, o sentimento de abandono profundo é geral, e reflecte-se em movimentos corporais excêntricos e estáticos, suaves expressões e ausência delas. Javier Bradem é a essência de todo este desflorar da vida, a benevolência da sua personagem, as constantes invocações e a devoção levam-no a desvendar trilhos espirituais e guiar outros pelo destino.
De todo o filme a cena mais elucidativa é quando Kurylenko e Afleck quebram toda a casa numa acto de raiva, revolta e desespero mas, depois no rescaldo, há como que um pedido de desculpas e um profundo sentimento de culpa, eles apanham os pedaços de vidro quebrados no chão, como se estivessem a apanhar pedaços da sua alma, limpam suavemente os destroços como se polissem e sua essência, é como que um começar de novo no universo espiritual, o renascimento dos sentidos e do espírito.
É um filme magnifico, um deleite para os olhos e para a mente. Combina uma belíssima fotografia com excepcionais interpretações e uma banda-sonora de cortar o fôlego.

domingo, maio 5

A Little Bit of Heaven


Quando a existência balança entre a sobrevivência e a morte, nasce o poder do amor no palco da nossa vida...

A Little Bit of Heaven não fala apenas no amor entre dois estranhos, um homem e uma mulher, fala de amor entre amigos, pais, mães e filhos. Trata de toda uma energia que faz girar o mundo de uma forma continua, constante, intransigente e arrebatadora.
Tecnicamente o filme é normal, sem grandes floridos, sem grande poder no diálogo, interpretações comuns sem nada de relevante a dizer. Mas a ideia, a história de vida é optimista, é divertida, é engraçada, faz rir quando se quer chorar, faz mexer quando se quer dormir. É um filme de espírito leve, simples e divertido que faz pensar e repensar no que a vida nos tem para oferecer, e naquilo que esperamos dela.
Quando estragamos a vida com excesso de viver, ela trai-nos, quando não vivemos com medo de a estragar, arrependemo-nos de nunca ter vivido. Qual a lógica disto? Nenhuma, essa é a verdadeira magia de estar vivo, nunca saber o que vem a seguir.